O Sentido da Razão e a Construção do Sagrado: Uma
Análise Histórico-Materialista e Mítica de Nossa Senhora
Aparecida
Diz o ditado que nunca devemos "perder a cabeça", uma metáfora comum para a perda da razão, do
discernimento e do autocontrole diante do caos. Essa mesma metáfora ganha um sentido material e
histórico profundo na formação da identidade brasileira através do mito de fundação de Nossa
Senhora Aparecida. No achado dos pescadores, a imagem surge fragmentada: o corpo sem a
cabeça manifesta a desmedida e a incompletude da própria condição humana e do trabalho braçal.
É somente no reencontro e na restauração da cabeça — o símbolo máximo da razão, da consciência
e do intelecto — que se estabelece a totalidade. O encontro da cabeça significa colocar a razão na
atividade laboral de homens que, embora iletrados e desprovidos de instrução formal,
compreenderam intuitivamente que a união daquelas partes operava uma transformação profunda
em sua realidade material. É nesse momento que as fronteiras entre o sagrado e o profano se
dissolvem, ecoando a filosofia clássica de Zhuangzi sobre o sonho da borboleta: a consciência
humana e o símbolo se fundem, e o milagre da abundância finalmente acontece, transformando a
escassez em esperança.
Em outubro de 1717, nas águas do Rio Paraíba do Sul, em São Paulo, três pescadores humildes –
Domingos Garcia, João Alves e Filipe Pedroso – foram incumbidos de uma tarefa exaustiva: obter
peixes para o banquete do governador da província. O cenário da Mata Atlântica e as águas turvas
testemunharam dias de extrema desmotivação, pois a escassez de peixes ameaçava o sustento e o
dever daqueles homens. Ao lançarem as redes sem esperança, retiraram primeiro o corpo e, em um
lance subsequente, a cabeça de uma imagem de terracota. Ao unirem os fragmentos, a fragilidade
do barro deu lugar a um sentimento coletivo de reverência.
O protagonismo, aqui, pertence inteiramente ao povo brasileiro: ao contrário de manifestações
marianas europeias baseadas em visões etéreas e revelações abstratas, o milagre de Aparecida
exigiu o toque, a técnica e a ação física de trabalhadores marginalizados que reconstruíram o próprio
símbolo com as próprias mãos. Essa imagem milagrosa, moldada originalmente em barro paulista
pelas mãos de Frei Agostinho de Jesus — o primeiro grande escultor nascido no Brasil no século
XVII —, ganha um novo eco histórico na sensibilidade artística de Milton Nascimento. Em sua
obra-prima Milagre dos Peixes (1973), a poesia e o canto sem palavras transformam a pescaria
mítica em uma metáfora de resistência política e sobrevivência cultural sob a opressão.
Sob a ótica da História do Sagrado e das Ciências da Religião, Aparecida não surge no vácuo, mas
se insere na milenar tradição das figuras Marianas e dos arquétipos do Sagrado Feminino. Ao longo
dos séculos, a humanidade recorreu a divindades maternas para representar a fertilidade, a
proteção e a própria terra que acolhe. Na tradição judaico-cristã, a figura de Maria resgata e
ressignifica essa busca pelo acolhimento cósmico. Enquanto aparições como as de Fátima (Portugal) ou Caravaggio (Itália) emergiram em momentos de forte tensão geopolítica europeia como
clamores institucionais e dogmáticos por paz e penitência, e Guadalupe (México) surgiu no estilhaço
da violência colonial espanhola, Aparecida se destaca pela materialidade e pela inversão desse
sagrado: Deus não desce dos céus em um feixe de luz metafísico; Ele emerge das profundezas das
águas esquecidas na forma de uma Mãe fragmentada que precisa ser acolhida e reconstruída pelo
toque humano.
A essa história do sagrado soma-se, inevitavelmente, o factor da questão racial e da identidade
negra. A cor escura da imagem, decorrente do tempo em que ficou submersa no rio e do fumo das
velas dos altares domésticos, operou um poderoso processo de identificação imediata para a
população escravizada e marginalizada no Brasil colonial. Como bem observa a professora e
intelectual negra Lélia Gonzalez, a figura teórica da "Mãe Preta" centraliza um espaço crucial de
agência e resistência cultural: ao fitarem uma santa negra, os corpos submetidos à violência da
escravidão encontravam a dignidade de sua própria imagem refletida no divino, subvertendo a lógica
eurocêntrica do colonizador.
Essa força popular se desdobra no sincretismo religioso brasileiro, onde a devoção às águas opera
um espelhamento profundo das grandes divindades femininas da tradição afro-brasileira. Existe uma
geografia mística e afetiva que divide e abraça as águas do país: enquanto Nossa Senhora
Aparecida, a senhora das águas doces e dos rios, é traduzida e cultuada na vibração de Oxum
— a divindade iorubá do ouro, do amor e da fertilidade que governa as correntes dos rios —,
Nossa Senhora dos Navegantes, a protetora das grandes travessias, manifesta-se em simetria
absoluta com Iemanjá, a rainha soberana dos mares e mãe de quase todos os orixás. Essas
duas santas e divindades formam os pilares mais poderosos da fé popular e da sensibilidade
religiosa afro-brasileira. O sincretismo, sob essa luz, deixa de ser mera cópia ou disfarce;
transforma-se em uma sofisticada tecnologia de sobrevivência espiritual e resistência identitária,
permitindo que as matrizes africanas seguissem pulsando vivas através das águas simbólicas do
catolicismo popular.
Embora a história factual e o mercado de trabalho da época tenham colocado homens na linha de
frente da pescaria, a engrenagem que transformou o achado em um culto vivo foi movida pelo
protagonismo das mulheres reais. Foram as mulheres das comunidades ribeirinhas e rurais as
primeiras guardiãs da imagem. Longe das grandes catedrais e do clero oficial masculino, foram elas
que organizaram os primeiros oratórios domésticos, costuraram os mantos, limparam as capelas
improvisadas e transmitiram a devoção de geração em geração através da tradição oral.
A figura da Mãe e protetora consolida-se não como um dogma abstrato ditado por teólogos, mas
como um constructo cultural de acolhimento, cuidado e resistência social. Ao assumirem a
responsabilidade pelo sagrado doméstico, essas mulheres transformaram uma pequena imagem de
barro no pilar emocional e identitário de um país inteiro. Como nos ensina o legado de Lélia
Gonzalez sobre a centralidade feminina na transmissão da cultura amefricana, a manutenção da fé e
da memória histórica periférica é, fundamentalmente, um ato político de resistência das mulheres. Em tempos de acirramento político e instrumentalização eleitoral da fé, resgatar a génese de Nossa
Senhora Aparecida torna-se um imperativo ético e um convite ao apaziguamento. Quando o sagrado
é fragmentado para servir como ferramenta de exclusão e intolerância religiosa, perde-se a própria
essência do milagre do Rio Paraíba do Sul. Aparecida, in sua rica complexidade material, mítica e
sincrética, não pertence a um projeto de poder ou a uma única corrente dogmática; ela pertence à
costura histórica do povo brasileiro. Ao reconciliar a herança católica, a ancestralidade africana de
Oxum e Iemanjá, e o clamor das classes trabalhadoras, o símbolo da Padroeira ergue-se não para
erguer muros confessionais, mas como uma ponte ecumênica de respeito à pluralidade. A
reconstrução da santa pelas mãos de pescadores pobres nos ensina que o verdadeiro sagrado
reside na dignidade humana, no acolhimento mútuo e na mística de que a abundância e a paz social
só são possíveis quando superamos a escassez do preconceito.
Referências Bibliográficas
GONZALEZ, Lélia. Primavera para as rosas negras: Lélia Gonzalez em primeira pessoa. Diáspora Negra,
2018. (Reúne os ensaios sobre a figura da Mãe Preta e o racismo cultural no Brasil).
NASCIMENTO, Milton. Milagre dos Peixes. Rio de Janeiro: EMI-Odeon, 1973. 1 disco de vinil.
PRANDI, Reginaldo. Os príncipes do destino: histórias dos orixás do candomblé. São Paulo: Cosac Naify,
2001. (Para fundamentar a transição mítica e o sincretismo de Oxum, Iemanjá e as águas).
SANTOS, Lourival dos. O Enegrecimento de Nossa Senhora Aparecida: Religião, Política e Identidade Negra
no Brasil. São Paulo: Editora Alameda, 2007. (Analisa detalhadamente a transição sociocultural da
imagem em direção à identidade racial).
ZHUANGZI. Tratado do Vazio Perfeito. (Tradução e notas). São Paulo: Cultrix, 2006. (Referência para a fusão
entre a consciência, o sonho e o símbolo através da metáfora da borboleta).