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quinta-feira, 1 de outubro de 2026

O Sentido da Razão e a Construção do Sagrado

O Sentido da Razão e a Construção do Sagrado: Uma
Análise Histórico-Materialista e Mítica de Nossa Senhora
Aparecida
Diz o ditado que nunca devemos "perder a cabeça", uma metáfora comum para a perda da razão, do
discernimento e do autocontrole diante do caos. Essa mesma metáfora ganha um sentido material e
histórico profundo na formação da identidade brasileira através do mito de fundação de Nossa
Senhora Aparecida. No achado dos pescadores, a imagem surge fragmentada: o corpo sem a
cabeça manifesta a desmedida e a incompletude da própria condição humana e do trabalho braçal.
É somente no reencontro e na restauração da cabeça — o símbolo máximo da razão, da consciência
e do intelecto — que se estabelece a totalidade. O encontro da cabeça significa colocar a razão na
atividade laboral de homens que, embora iletrados e desprovidos de instrução formal,
compreenderam intuitivamente que a união daquelas partes operava uma transformação profunda
em sua realidade material. É nesse momento que as fronteiras entre o sagrado e o profano se
dissolvem, ecoando a filosofia clássica de Zhuangzi sobre o sonho da borboleta: a consciência
humana e o símbolo se fundem, e o milagre da abundância finalmente acontece, transformando a
escassez em esperança.
Em outubro de 1717, nas águas do Rio Paraíba do Sul, em São Paulo, três pescadores humildes –
Domingos Garcia, João Alves e Filipe Pedroso – foram incumbidos de uma tarefa exaustiva: obter
peixes para o banquete do governador da província. O cenário da Mata Atlântica e as águas turvas
testemunharam dias de extrema desmotivação, pois a escassez de peixes ameaçava o sustento e o
dever daqueles homens. Ao lançarem as redes sem esperança, retiraram primeiro o corpo e, em um
lance subsequente, a cabeça de uma imagem de terracota. Ao unirem os fragmentos, a fragilidade
do barro deu lugar a um sentimento coletivo de reverência.
O protagonismo, aqui, pertence inteiramente ao povo brasileiro: ao contrário de manifestações
marianas europeias baseadas em visões etéreas e revelações abstratas, o milagre de Aparecida
exigiu o toque, a técnica e a ação física de trabalhadores marginalizados que reconstruíram o próprio
símbolo com as próprias mãos. Essa imagem milagrosa, moldada originalmente em barro paulista
pelas mãos de Frei Agostinho de Jesus — o primeiro grande escultor nascido no Brasil no século
XVII —, ganha um novo eco histórico na sensibilidade artística de Milton Nascimento. Em sua
obra-prima Milagre dos Peixes (1973), a poesia e o canto sem palavras transformam a pescaria
mítica em uma metáfora de resistência política e sobrevivência cultural sob a opressão.
Sob a ótica da História do Sagrado e das Ciências da Religião, Aparecida não surge no vácuo, mas
se insere na milenar tradição das figuras Marianas e dos arquétipos do Sagrado Feminino. Ao longo
dos séculos, a humanidade recorreu a divindades maternas para representar a fertilidade, a
proteção e a própria terra que acolhe. Na tradição judaico-cristã, a figura de Maria resgata e
ressignifica essa busca pelo acolhimento cósmico. Enquanto aparições como as de Fátima (Portugal) ou Caravaggio (Itália) emergiram em momentos de forte tensão geopolítica europeia como
clamores institucionais e dogmáticos por paz e penitência, e Guadalupe (México) surgiu no estilhaço
da violência colonial espanhola, Aparecida se destaca pela materialidade e pela inversão desse
sagrado: Deus não desce dos céus em um feixe de luz metafísico; Ele emerge das profundezas das
águas esquecidas na forma de uma Mãe fragmentada que precisa ser acolhida e reconstruída pelo
toque humano.
A essa história do sagrado soma-se, inevitavelmente, o factor da questão racial e da identidade
negra. A cor escura da imagem, decorrente do tempo em que ficou submersa no rio e do fumo das
velas dos altares domésticos, operou um poderoso processo de identificação imediata para a
população escravizada e marginalizada no Brasil colonial. Como bem observa a professora e
intelectual negra Lélia Gonzalez, a figura teórica da "Mãe Preta" centraliza um espaço crucial de
agência e resistência cultural: ao fitarem uma santa negra, os corpos submetidos à violência da
escravidão encontravam a dignidade de sua própria imagem refletida no divino, subvertendo a lógica
eurocêntrica do colonizador.
Essa força popular se desdobra no sincretismo religioso brasileiro, onde a devoção às águas opera
um espelhamento profundo das grandes divindades femininas da tradição afro-brasileira. Existe uma
geografia mística e afetiva que divide e abraça as águas do país: enquanto Nossa Senhora
Aparecida, a senhora das águas doces e dos rios, é traduzida e cultuada na vibração de Oxum
— a divindade iorubá do ouro, do amor e da fertilidade que governa as correntes dos rios —,
Nossa Senhora dos Navegantes, a protetora das grandes travessias, manifesta-se em simetria
absoluta com Iemanjá, a rainha soberana dos mares e mãe de quase todos os orixás. Essas
duas santas e divindades formam os pilares mais poderosos da fé popular e da sensibilidade
religiosa afro-brasileira. O sincretismo, sob essa luz, deixa de ser mera cópia ou disfarce;
transforma-se em uma sofisticada tecnologia de sobrevivência espiritual e resistência identitária,
permitindo que as matrizes africanas seguissem pulsando vivas através das águas simbólicas do
catolicismo popular.
Embora a história factual e o mercado de trabalho da época tenham colocado homens na linha de
frente da pescaria, a engrenagem que transformou o achado em um culto vivo foi movida pelo
protagonismo das mulheres reais. Foram as mulheres das comunidades ribeirinhas e rurais as
primeiras guardiãs da imagem. Longe das grandes catedrais e do clero oficial masculino, foram elas
que organizaram os primeiros oratórios domésticos, costuraram os mantos, limparam as capelas
improvisadas e transmitiram a devoção de geração em geração através da tradição oral.
A figura da Mãe e protetora consolida-se não como um dogma abstrato ditado por teólogos, mas
como um constructo cultural de acolhimento, cuidado e resistência social. Ao assumirem a
responsabilidade pelo sagrado doméstico, essas mulheres transformaram uma pequena imagem de
barro no pilar emocional e identitário de um país inteiro. Como nos ensina o legado de Lélia
Gonzalez sobre a centralidade feminina na transmissão da cultura amefricana, a manutenção da fé e
da memória histórica periférica é, fundamentalmente, um ato político de resistência das mulheres. Em tempos de acirramento político e instrumentalização eleitoral da fé, resgatar a génese de Nossa
Senhora Aparecida torna-se um imperativo ético e um convite ao apaziguamento. Quando o sagrado
é fragmentado para servir como ferramenta de exclusão e intolerância religiosa, perde-se a própria
essência do milagre do Rio Paraíba do Sul. Aparecida, in sua rica complexidade material, mítica e
sincrética, não pertence a um projeto de poder ou a uma única corrente dogmática; ela pertence à
costura histórica do povo brasileiro. Ao reconciliar a herança católica, a ancestralidade africana de
Oxum e Iemanjá, e o clamor das classes trabalhadoras, o símbolo da Padroeira ergue-se não para
erguer muros confessionais, mas como uma ponte ecumênica de respeito à pluralidade. A
reconstrução da santa pelas mãos de pescadores pobres nos ensina que o verdadeiro sagrado
reside na dignidade humana, no acolhimento mútuo e na mística de que a abundância e a paz social
só são possíveis quando superamos a escassez do preconceito.
Referências Bibliográficas
GONZALEZ, Lélia. Primavera para as rosas negras: Lélia Gonzalez em primeira pessoa. Diáspora Negra,
2018. (Reúne os ensaios sobre a figura da Mãe Preta e o racismo cultural no Brasil).
NASCIMENTO, Milton. Milagre dos Peixes. Rio de Janeiro: EMI-Odeon, 1973. 1 disco de vinil.
PRANDI, Reginaldo. Os príncipes do destino: histórias dos orixás do candomblé. São Paulo: Cosac Naify,
2001. (Para fundamentar a transição mítica e o sincretismo de Oxum, Iemanjá e as águas).
SANTOS, Lourival dos. O Enegrecimento de Nossa Senhora Aparecida: Religião, Política e Identidade Negra
no Brasil. São Paulo: Editora Alameda, 2007. (Analisa detalhadamente a transição sociocultural da
imagem em direção à identidade racial).
ZHUANGZI. Tratado do Vazio Perfeito. (Tradução e notas). São Paulo: Cultrix, 2006. (Referência para a fusão
entre a consciência, o sonho e o símbolo através da metáfora da borboleta).

sexta-feira, 22 de agosto de 2025

quarta-feira, 16 de abril de 2025

Muito Barulho por Quase Nada













E foi assim o primeiro de maio em Macau. O dia de comemorações terminou com doze pessoas feridas e, destas, três ficaram hospitalizadas. Não é o comum neste pacato rincão enfrentamentos com a polícia. Uma cidade de dimensões modestas(cerca de 28 km quadrados) porém populosa (+/- 600.000 hab) onde macaenses, chineses, filipinos, coreanos e tailandeses onde desde 2000 disputam um promissor mercado de trabalho que não para de crescer devido a injeção de capital , crescimento de construção civil trazidos com a liberação dos "casinos"*( é com um "esse" mesmo que se escreve por aqui ) além do aumento das vagas para trabalho nos próprios "casinos" e seus fantásticos hotéis. Todo esse crescimento atraiu muita mão-de-obra desses países vizinhos além do próprio continente chinês. Após uma década do retorno de Macau para a China o resultado é uma população descontente com a crescente perda e adesqualificação dessas vagas no mercado para os "ilegais" ou trabalhadores informais. Com tudo isso a média de salário tem sofrido perdas bem com as condições de trabalho além da própria jornada que acabou aumentando. Esses fatos transformaram num caldo efervescente para as manifestações daquele primeiro sábado de maio em 2010. O governo de sua parte arregimentou um serviço de informação onde fotógrafos à paisana registrariam imagens de supostas agressões dos manifestantes além de convocar um forte contingente militar e policial para "organizar e manter a ordem da manifestação". Saimos em uma caminhada cultural, totalmente desavisados desse confronto, quando uma ruidosa multidão avisava que à poucos metros, do templo que visitávamosestava ocorrendo alguma manifestação. Estranhando muito tal fato, após três anos vivendo e convivendo com Macau, nunca tivemos notícia de algo semelhante. Impressionantemente próximo donde moramos esse bairro que essencialmente é de pessoas simples, nativas e trabalhadoras de Macau é onde preferencialmente se reúnem os descontentes que tentam de forma desorganizada, despolitizada e sem uma maior consequência manifestar suas reivndicações. Claro manifestação sem repercussão não resolve então esse ano resolveram tentar o cerco policial-militar para adentrar a principal avenida de Macau que sempre está, literalmente todos os dias, repleta de turistas que em suas máquinas não puderam registrar nada pois o cerco não arredou um centímetro mesmo diante de toda a pressão.
Mesmo com todo o aparato repressivo deliberadamente montado a população fez várias tentativas para furar o cerco às vezes arremessando pedras ora garrafas com água e até bandeiras com mastro e tudosem falar no corpo à corpo e o interminável bate-boca. Uma policia impassível armada de capacetes, escudos, cacetetetes, gás de pimenta e jatos de água que saiam de um caminhão de bombeiros freiava os anseios daquela insandecida "massa" o que acabou em vários feridos, inquéritos contra essas lideranças e talvez no frigir dos ovos não teremos uma repercussão mais significativa nem do ponto de vista das reivindicações nem acúmulo organizacional.
O futuro próximo nos mostrará os frutos ou a inexistência deles.
Assista o clip no final desta coluna e também assista aos vídeos do dia dos Trabalhadores em Macau no youtube:http://www.youtube.com/watch?v=z0WYh8naLIM



*Cassino(segundo HOUAISS)s.m. (1836) 1 B casa de diversões que trabalha basicamente com jogos de azar e ger. oferece outras diversões aos frequentadores, como espetáculos de música e dança, representações teatrais, espaço para danças etc.; casino2 lud jogo carteado, espécie de escopa, para quatro parceiros; casino3 mil B local onde se servem refeições aos oficiais e sargentos
* etim fr. casino 'casa de prazer', * do it. casino, lit. 'pequena casa; residência senhoril, rústica; lugar de reunião para leitura, jogo, conversação; prostíbulo; casa de jogo'

quinta-feira, 6 de julho de 2023

FUMÊ DE PEIXE - CozinhaPB 2





Já podemos agendar nossas consultas à partir de 21 de setembro

Já podemos agendar nossas consultas à partir de 21 de setembro
Já podemos agendar nossas consultas à partir de 21 de setembro. Até lá.